
Alan Poyatos é Chief Compliance Officer na BitBase e um dos perfis mais singulares do ecossistema cripto na Espanha: advogado de formação, holder de Bitcoin desde 2012 e convicto de que uma boa regulação constrói confiança e impulsiona o crescimento do negócio. Na BitBase, ele lidera um modelo híbrido — lojas físicas e caixas eletrônicos (ATMs) somados ao canal online — que leva cripto a pessoas que preferem atendimento humano, com KYC automatizado e revisão manual de cada onboarding. “Regulação é valor para o consumidor — quando é proporcional e aplicável”, diz ele, em referência ao MiCA, à prova de reservas e a planos de desligamento ordenado da operação.
Com base em sua experiência de expansão na América Latina (Panamá, Paraguai, Argentina, Bolívia e Costa Rica), ele destaca um contraste claro: “Lá, cripto é necessidade; aqui, é investimento.” Ele se preocupa com deepfakes e engenharia social e defende ferramentas que permitam o congelamento judicial de fundos roubados. Otimista declarado, não tem dúvidas sobre o destino: “Vamos ver adoção em massa; pagar o pão com cripto vai ser normal.”
Q: O que te motivou a entrar em cripto e assumir o cargo de compliance na BitBase?
A: Sou advogado e já operava em ações quando descobri as criptomoedas. A natureza disruptiva delas em relação ao sistema financeiro tradicional me fisgou. Sempre defendi liberdades civis e direitos do consumidor — atuei em processos contra instituições financeiras em casos de fraude bancária — e enxerguei no Bitcoin e no blockchain uma alternativa que devolve às pessoas o controle sobre o próprio dinheiro, em contraste com um sistema que abandonou o padrão-ouro e permite que Estados manipulem câmbio e valor da moeda. Comprei meu primeiro bitcoin em 2012 e, desde então, sou holder convicto. A tecnologia blockchain empodera as pessoas, especialmente em países com hiperinflação ou moedas manipuladas. É verdade que hoje os grandes players são instituições e que o investidor de varejo perdeu parte daquela oportunidade histórica, mas a chance existiu — e eu fico feliz por ter apostado nela.
Q: Vocês combinam físico e digital. Como é gerir compliance nesse ambiente híbrido?
A: Nosso negócio é cripto com uma camada muito tradicional. Atendemos pessoas que não querem comprar online: existe um gap de tecnologia, desconfiança ou, simplesmente, preferência por contato humano. Por isso as lojas físicas e os ATMs são tão importantes: oferecem atendimento de verdade e resolução rápida de problemas (incluindo suporte por telefone direto nos caixas). Do ponto de vista regulatório, o modelo híbrido é mais complexo porque também trabalhamos com dinheiro em espécie. Cripto já traz risco por causa da pseudoanonimidade; somando cash, o “coquetel” fica mais forte. A gente mitiga com treinamento intenso (fraude e AML/CFT), identificação automatizada e revisão manual de cada cadastro: olhos humanos verificam o vídeo, o liveness e a consistência das informações. Incluímos sinais como a forma como a pessoa pronuncia números durante o vídeo. Isso reduz de forma significativa a chance de alguém estar se passando por outra pessoa.
Q: Vocês verificam usuários diretamente nos ATMs? Como funciona?
A: Sim. Se você for novo, depois de digitar o número de celular recebe um link e conclui o onboarding pelo próprio telefone, com verificação em vídeo. Todos os clientes da BitBase são identificados.
Q: Um desafio clássico do setor é equilibrar transparência, UX e acessibilidade. Como vocês lidam com essa tensão?
A: No começo, muitos usuários buscavam privacidade extrema. A regulação, em nome da segurança do consumidor, reduziu esse anonimato. Parte desse público foi para ambientes mais opacos; outra parte entendeu que identificação traz garantias. Com Travel Rule, verificação e rastreabilidade, o nível de fraude cai: ninguém quer aplicar golpe “em nome próprio”.
Q: Quais são os principais pontos de dor de compliance para uma empresa híbrida como a de vocês?
A:
Reputação do setor: A narrativa “cripto = ilegal” fez estrago. A tecnologia não é boa nem má por si só; depende de como é usada. Cripto permite transferências globais, custos mais baixos e pagamentos irrevogáveis (para o bem e para o mal), o que muda as regras do jogo. Por exemplo, você não espera 48 horas úteis bancárias e o pagamento não pode ser revertido. Dá para pagar alguém no Japão quase instantaneamente em uma “moeda” comum.
À medida que o entendimento sobre impostos melhora e o arcabouço regulatório amadurece, o setor tende a evoluir para novos produtos: mais staking, lending e tokenização de ativos do mundo real.
Q: Com MiCA e mais regulação, o consumidor se sente mais seguro?
A: Ainda não chegamos à adoção em massa. O público geral provavelmente vai entrar via produtos financeiros tradicionais, abrindo mão de parte do upside potencial. Mas a regulação constrói estruturas de confiança: autorização MiCA, mecanismos de reclamação, suporte na língua local, prova de reservas e planos de desligamento ordenado para evitar novos “casos FTX”. Não é “compliance de fachada”: são planos reais, com papéis definidos e firewalls, auditorias e verificação de que os criptoativos custodiados existem de fato, incluindo resposta a incidentes de ciberataque (quem faz o quê, como se comunica e quais firewalls operacionais são ativados).
Q: Alguns enxergam a regulação como freio à inovação. Para você, é valor agregado ou barreira?
A: É valor agregado e proteção ao consumidor se for implementada com organização, prazos razoáveis e ouvindo o setor. Mas hoje há, sim, uma barreira forte de entrada: embora o princípio de proporcionalidade exista no papel, é muito difícil um pequeno empreendedor lançar uma exchange por causa dos custos fixos de compliance. Isso desacelera a inovação, mas reduz “boiler rooms” e listagens irresponsáveis: acabou a era de “dois amigos na garagem com o ChatGPT escrevendo um whitepaper”. Antes de listar, você precisa analisar o projeto a sério.
É preciso ter cuidado com golpes de falsidade ideológica: canais e grupos falsos no Telegram se passam pela BitBase; a nossa recomendação é sempre conferir os canais oficiais.
Q: Vocês têm planos de expansão?
A: Sim. Já temos presença na América Latina — Panamá, Paraguai, Argentina, Bolívia e Costa Rica — e vamos continuar crescendo. Com a autorização MiCA, vamos abrir novos mercados na Europa.
Q: Como você enxerga as diferenças regulatórias e culturais entre Europa e América Latina?
A: Fiquei positivamente surpreso: na América Latina há regulação extensa de AML/CFT e regras específicas para cripto, com treinamento gratuito oferecido pelos supervisores para profissionais de compliance. Culturalmente, na Europa prevalece o foco em investimento; na América Latina, cripto é mais usada como meio de pagamento e reserva de valor. Muita gente poupa em stablecoins (USDT) ou bitcoin porque a moeda local é fraca e o acesso ao dólar é limitado. Lá, cripto é necessidade, não opção.
Q: Pensando em curto e médio prazo, quais riscos emergentes mais te preocupam?
A: Dois grandes:
Engenharia social cada vez mais sofisticada: golpistas conseguem fazer pessoas de qualquer idade “normalizarem” pagamentos em cripto para fraudadores.
Também gostaria de ver tecnologias capazes de congelar ou apreender fundos identificados como roubados — não apenas marcá-los on-chain — e devolvê-los ao verdadeiro dono depois de uma decisão judicial definitiva.
Q: Que conselho você daria para quem quer trabalhar com compliance em cripto?
A: Vá em frente. É muito estimulante combinar direito, compliance e cripto. Ninguém sabe tudo: a gente aprende em tempo real. Você precisa de motivação, curiosidade e capacidade de aceitar que o arcabouço está mudando o tempo todo com novas orientações e interpretações.
Q: Como você imagina seu papel em 10 anos, quando cripto fizer parte do dia a dia?
A: Espero continuar como líder (mais sênior) de compliance e ver a adoção massiva: comprar pão com cripto como algo absolutamente corriqueiro. Não tenho dúvida de que isso vai acontecer.
