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Juan Oliveros: “Treinar as entidades obrigadas é a chave para a adoção em massa de cripto”
November 27, 2025

Juan Oliveros: “Treinar as entidades obrigadas é a chave para a adoção em massa de cripto”

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Juan Oliveros atua como especialista em prevenção à lavagem de dinheiro (AML Specialist) na Cuatrecasas, unindo formação em Direito e Administração de Empresas. Sua carreira começou em uma empresa custodiante de ativos digitais, onde ele teve o primeiro contato profundo com o universo das criptomoedas. Desde fevereiro de 2021, ele vem dedicando sua trajetória profissional à prevenção à lavagem de dinheiro e ao compliance regulatório, especializando-se na rastreabilidade que a tecnologia blockchain oferece e desenhando processos de AML eficientes, adaptados ao setor. Já trabalhou com revisões de KYC, análise de transações e assessoria a entidades na integração de ferramentas e processos de crypto AML.

“O que realmente me conquistou foi descobrir que, ao contrário do dinheiro fiduciário, com blockchain você consegue rastrear cada transação até a sua origem — é uma ferramenta prática para frear o uso ilícito de recursos”, explica Juan, destacando a vantagem de transparência que a tecnologia traz para o compliance. Olhando para frente, Oliveros alerta: “Estamos em um ponto de virada em que a regulação está ficando mais rígida e se expandindo para novos sujeitos obrigados, o que vai exigir que todas as organizações elevem seus padrões de compliance”.

Pergunta: O que levou você a se especializar em compliance aplicado a criptoativos?

Resposta: Quando terminei meus estudos em Direito e Administração de Empresas, tive a oportunidade de começar a trabalhar na Onyze, uma custodiante de ativos digitais. Naquela época, sendo bem sincero, eu não tinha muito conhecimento sobre o mundo cripto. Porém, eu tinha um amigo de infância muito envolvido nesse setor, conhecido por participar de projetos relevantes como o Aragon e que hoje trabalha em um projeto de banco descentralizado. No começo, quando ele falava disso comigo, tudo soava como um “canto de sereia” — algo distante e estranho —, mas quando surgiu essa oportunidade, conversei com ele e ele me orientou bastante. Olhando em retrospecto, acho que foi uma das melhores decisões profissionais que já tomei. Hoje eu diria que sou um verdadeiro nerd do setor — estou sempre lendo, me atualizando e me aprofundando no tema. Ainda assim, tento me afastar do estigma do valor puramente especulativo do Bitcoin e focar mais no potencial tecnológico e em como isso vai transformar o sistema financeiro.

P: O setor mudou muito desde que você começou, em fevereiro de 2021?

R: Enormemente. Principalmente na parte de prevenção à lavagem de dinheiro. Lembro perfeitamente que, quando entrei no setor, as empresas cripto nem sequer eram consideradas “entidades obrigadas”. Era praticamente um “Velho Oeste”, o que nos obrigou a adaptar todos os processos de AML à regulação existente e a obter o registro junto ao Banco da Espanha. Desde então, a evolução foi radical. Sempre que se fala em cripto, muita gente já reage dizendo que “não dá para rastrear”, que “não dá para saber quem está por trás”. E é verdade que, no início, o Bitcoin apareceu em contextos como o Silk Road e a Dark Web, associando o setor a atividades ilícitas. Mas a realidade atual é bem diferente. O grande valor do blockchain é justamente a sua rastreabilidade: você consegue acompanhar praticamente tudo. Um exemplo visual que costumo dar é o seguinte: hoje você recebe uma nota de 50 dólares ou 50 euros e não faz ideia de quem teve essa nota cinco mãos antes. Em blockchain, você consegue saber. Além disso, existem ferramentas de análise extremamente poderosas que permitem identificar as entidades e os fluxos por trás de cada operação.

P: Você percebe uma mudança na forma como os profissionais veem hoje o setor cripto?

R: Com certeza, mas isso depende muito do perfil e da geração. Pessoas que vêm de setores mais tradicionais tendem a ser bem mais resistentes. Talvez por falta de conhecimento ou por experiências indiretas negativas, mas, em geral, mostram maior desconfiança. Por outro lado, quando você conversa com perfis mais tecnológicos ou com pessoas mais jovens, a percepção muda completamente. Esse público entende muito rápido o valor real do setor, capta a lógica e adota as soluções de forma muito mais ágil.

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P: Você considera que a regulação atual de prevenção à lavagem de dinheiro e KYC é suficientemente robusta?

R: Ela avançou bastante nos últimos anos, especialmente graças aos padrões do GAFI (FATF) e à criação da nova Autoridade Europeia de Combate à Lavagem de Dinheiro, a AMLA. Antes havia uma certa fragmentação regulatória — cada país aplicava as diretivas europeias de um jeito —, mas com a AMLA espera-se uma harmonização muito importante. Eu diria que é o avanço regulatório mais relevante na Europa dos últimos tempos e que vai ajudar a garantir maior coerência em toda a União Europeia.

P: Como você acha que regulações como MiCA, DORA ou a Travel Rule vão impactar as empresas cripto?

R: De forma muito positiva, porque trazem segurança jurídica. Quando comecei, como comentei, quase não havia regulação específica. Agora, com MiCA e a Travel Rule, o setor passa a contar com uma estabilidade regulatória essencial para atrair grandes instituições financeiras e fundos de investimento, que antes ficavam de fora justamente pela falta de um marco regulatório claro. Essa segurança regulatória é fundamental para alcançar uma adoção em massa do setor.

P: Você acha que a regulação é suficiente para atrair o público geral para o mercado cripto?

R: A regulação ajuda, mas sozinha não resolve tudo. De forma geral, os jovens já sabem como acessar esse tipo de produto com facilidade, mas para públicos mais velhos — como meus pais ou avós — abrir conta em uma exchange não é algo simples nem habitual. É aí que entram as instituições financeiras tradicionais: se os grandes bancos começarem a oferecer esses serviços com a segurança regulatória atual, vão tornar o processo muito mais fácil para o usuário médio. No entanto, muitas instituições financeiras aplicam o famoso de-risking, partindo do princípio de que tudo ligado a cripto é “problemático”. Em vez disso, deveriam aproveitar o boom do setor, treinar bem suas equipes, criar bons procedimentos de crypto AML e entender as oportunidades reais que esse mercado oferece.

P: Não existe o risco de uma regulação excessiva prejudicar a experiência do usuário?

R: Uma regulação excessiva pode, sim, ser negativa, mas não acho que hoje exista esse exagero em cripto. O que eu percebo mais é uma compreensão insuficiente do setor e uma aplicação equivocada da regulação já existente. O equilíbrio está em entender de fato o setor, capacitar adequadamente os profissionais e usar corretamente as ferramentas disponíveis.

P: Qual é a importância do processo de KYC na prevenção à lavagem de dinheiro no mundo cripto?

R: O KYC é absolutamente fundamental, tanto em cripto quanto em qualquer setor financeiro. Ele permite saber realmente quem está por trás de cada operação, prevenindo fraude, roubo de identidade e atos ilícitos. Além disso, os dados obtidos no processo de KYC alimentam diretamente os algoritmos que definem o perfil de risco de cada cliente. Sem um KYC robusto e dados confiáveis, não há como ter um bom algoritmo nem fazer uma gestão de riscos efetiva.

P: Quais elementos não podem faltar em um bom plano de prevenção à lavagem de dinheiro?

R: Na minha visão, existem três elementos essenciais:

  • Um provedor de KYC que garanta verificações confiáveis.
  • Um algoritmo de risco bem calibrado, que permita segmentar corretamente os clientes, acompanhado de um sistema de alertas robusto.
  • Uma equipe altamente capacitada e qualificada. Esse último ponto é crucial, porque são as pessoas que tomam as decisões críticas. Além disso, treinamento contínuo é indispensável, já que vivemos em um ambiente muito dinâmico, com novas tecnologias e novas formas de fraude surgindo o tempo todo.

P: Por que é tão importante que um analista de AML defina corretamente os perfis de risco?

R: Porque esse é o primeiro referencial e a primeira impressão que você tem em qualquer análise. Um perfil de risco bem definido ajuda muito a gerenciar operações suspeitas de maneira rápida e eficiente. É a base sobre a qual você trabalha todos os dias.

P: Como é o dia a dia de um analista de AML?

R: Muito dinâmico. Pessoalmente, considero-me bem sortudo, porque, ao longo da minha carreira, pude atuar em todas as etapas de um ciclo completo de compliance: desde as revisões iniciais de KYC, a análise operacional e a definição de perfis, até a tomada de decisões finais. Isso me deu uma visão global do processo, algo que valorizo bastante porque contribui muito para o crescimento profissional.

P: Para onde você acha que a regulação de AML está caminhando no futuro?

R: Provavelmente para a ampliação do rol de entidades obrigadas. Por exemplo, a nova diretiva europeia prevê incluir clubes esportivos e agentes de futebol. E, especificamente em cripto, é bem provável que venham a ser regulados aspectos que o MiCA deixou de fora, como NFTs ou as finanças descentralizadas (DeFi) — uma área que, na minha opinião, representa a próxima grande revolução financeira.

Juan Oliveros: “Treinar as entidades obrigadas é a chave para a adoção em massa de cripto”

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