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Martín Perucca: “Prevenir a fraude fortalece a proposta de valor da organização”
November 29, 2025

Martín Perucca: “Prevenir a fraude fortalece a proposta de valor da organização”

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Há mais de duas décadas, Martín Perucca se dedica a combater a fraude e a lavagem de dinheiro. Na Argentina e em toda a América Latina, ele é uma referência — não só pela vasta experiência, mas também por um mantra que repete sempre: segurança precisa se transformar em proposta de valor.

“É uma aposta rentável — capaz de convencer até o CFO mais cético”, afirma. Sua visão vai além do mero cumprimento regulatório: ele quer proteger pessoas e organizações, reforçando que construir uma verdadeira cultura de prevenção não acontece em dias — leva anos. É uma mentalidade que questiona a forma como enxergamos o compliance hoje.

Pergunta: Sua carreira reúne consultoria, docência e experiência em serviços financeiros. O que fez você focar em fraude e segurança? Qual é o problema que mais te move hoje?

Resposta: Comecei em uma instituição financeira em Córdoba, na Argentina, no departamento de análise de crédito. Mas logo passei a me interessar cada vez mais por fraude. Descobri que tinha facilidade para detectá-la — e, cada vez que conseguia evitá-la, sentia uma satisfação em dobro: ajudava a organização e, ao mesmo tempo, protegia alguém que poderia ter a identidade roubada.

Isso foi no começo dos anos 2000, quando a fraude documental ainda era bem rudimentar — documentos falsos com adesivos, algo bem básico. Mesmo assim, percebi que a prevenção não apenas evitava perdas para a empresa, mas também gerava valor para a comunidade. Esse propósito me acompanha até hoje — e é o que me motiva: mais do que um trabalho, sinto que contribuo para um bem maior.

P: Você cofundou a Mooy, onde o compliance é uma das áreas de foco. Quão importante é o cumprimento regulatório para as empresas hoje?

R: As normas existem por um motivo — e não há debate sobre cumpri-las ou não. As organizações precisam se adaptar. Mas muitas vezes sou chamado justamente depois que surge uma nova regra: “Saiu uma nova norma, precisamos de uma estratégia de prevenção à fraude.” Tento mudar a conversa: o cumprimento é inegociável, mas a prevenção à fraude contribui diretamente para a proposta de valor da empresa. Se você enxerga assim, o compliance passa a acontecer de forma mais natural.

P: Se você coloca a segurança no centro da proposta de valor, que mudanças faria em um processo típico de onboarding ou de transação?

R: A segurança precisa estar presente desde o primeiro contato no relacionamento — abertura de conta, pedido de produto, onboarding. É necessário identificar, verificar e validar a identidade com uma estratégia ponta a ponta. Nenhuma ferramenta, sozinha, resolve tudo.

O que mais importa é ter uma equipe treinada, com políticas e processos claros, as ferramentas certas e as permissões necessárias para gerir e prevenir potenciais fraudes.

Onboarding

  • Biometria (face, impressão digital ou voz).
  • Listas negativas / listas de observação (watchlists).
  • Verificação de consistência dos dados do cliente.
  • Cruzamentos internos com bases de clientes existentes.
  • Validação em cadastros e registros oficiais.

Transacional

  • Controles tecnológicos orquestrados, integrados em uma estratégia de gestão baseada em risco, permitindo monitoramento em tempo real e ações preventivas com abordagem multicanal e multiproduto.

E mais um ponto: segurança é responsabilidade de todos. Do conselho de administração aos colaboradores da linha de frente, todo mundo pode contribuir. Claro que deve existir uma função claramente responsável, mas a cultura de prevenção se constrói de cima para baixo.

Para isso, alguns elementos são essenciais:

  • Um propósito claro que conecte as pessoas ao impacto do que fazem
  • Treinamentos específicos por papel — e não um único treinamento igual para todos
  • Orçamentos dedicados para ferramentas e processos
  • Um código de ética que defina responsabilidades e limites
  • Um canal de denúncias anônimo, bem divulgado e mantido ao longo do tempo

E, acima de tudo, liderança. Cultura não nasce da noite para o dia; pela minha experiência, leva pelo menos três anos para começar a ver resultados consistentes. Tudo isso deve ser feito com coerência e com foco em pessoas: tanto colaboradores quanto clientes. Quando o colaborador entende que seguir um procedimento não é mera formalidade, mas uma forma de proteger a experiência do cliente e a reputação da organização, o nível de compromisso muda completamente.

P: Algumas empresas ainda tratam o compliance como um simples checklist. Quanto esse mindset custa para o negócio?

R: Se você encara isso como uma despesa contábil, perde a oportunidade de gerar valor. Quando a prevenção é integrada à proposta de valor, passa a ser um investimento. Nos nossos projetos de consultoria, sempre montamos um business case: quanto se evita de perda, qual o impacto na experiência do cliente e na carteira. Os números são sempre positivos.

A ACFE estima que as organizações perdem 5% da receita anual por causa de fraude — isso, por si só, já justifica o investimento. Além disso, o payback de soluções tecnológicas costuma ficar entre 12 e 14 meses. E ainda tem a reputação: qual imagem você quer que sua organização tenha? Se você lança um produto associado à fraude, a confiança perdida custa muito mais caro do que qualquer investimento em prevenção.

Segundo a KPMG, 83% dos consumidores escolhem uma instituição financeira com base em segurança, e 76% das vítimas de fraude abandonam o seu banco. Esses números mostram o quanto segurança impacta diretamente o negócio.

P: Quais são os principais “pontos cegos” que você enxerga nos modelos de prevenção?

R: O maior é ignorar a fraude interna. Muitas organizações acreditam que não têm esse problema — mas, quando fazemos uma avaliação séria, ela aparece. A gravidade pode variar, mas fraude interna existe em todo lugar: fábricas, clínicas, instituições financeiras. Há uma frase conhecida: existem dois tipos de organização — as que já sofreram fraude interna e as que ainda vão sofrer.

P: Como qualquer empresa pode começar a corrigir esses pontos cegos?

R: O primeiro passo é reconhecer e diagnosticar: solicitar dados, analisar reclamações de clientes, olhar com atenção para as perdas. Sempre se encontra mais do que aparece nos relatórios.

Depois, é preciso planejar a partir de três pilares:

  1. Tecnologia – monitorar 100% das operações, incluindo dados estruturados e não estruturados.
  2. Processos seguros – desenhados com equilíbrio. Um produto excessivamente travado perde usabilidade. O objetivo é buscar o “muito bom”, não o “perfeito impossível”.
  3. Pessoas – a cultura de prevenção é o alicerce. As áreas de fraude precisam estar integradas com cibersegurança, AML e tecnologia. Quando as estratégias estão unificadas, a prevenção funciona muito melhor.

Hoje, mais de 90% da fraude é digital — então os silos organizacionais precisam acabar. E há algo fundamental: por trás de cada fraude existe uma pessoa. Em entrevistas com vítimas, já vi medo, vergonha, incerteza. Muitas não registram ocorrência porque não acreditam que a Justiça vá agir. Essa dimensão humana nos lembra que prevenir fraude não é apenas proteger balanços — é proteger pessoas.

P: Como equilibrar compliance e experiência do usuário sem gerar fricção excessiva?

R: O segredo é colocar na mesma mesa as equipes de segurança, cibersegurança, produto e tecnologia. Quando cada área trabalha isolada, a fricção aparece. Com colaboração, o equilíbrio vem. E tudo precisa estar conectado ao propósito da organização.

Se uma instituição financeira diz que seu propósito é “facilitar a vida com produtos tecnológicos”, um caso de fraude quebra essa promessa. Com esse propósito como bússola, você encontra soluções que cumprem a regulação, protegem e não sobrecarregam o usuário.

P: Você acha que essa mentalidade vai se tornar padrão no setor ou sempre haverá exceções?

R: Há alguns anos isso parecia utópico — hoje, não mais. Em países como Argentina e Brasil, muitas organizações já trabalham orientadas por propósito e alinham a empresa inteira em torno disso. Quem não fizer esse movimento vai perder competitividade. Sempre existirão exceções, mas a tendência é clara: sair de um compliance movido apenas por obrigação e migrar para uma prevenção entendida como valor central.

P: Você mencionou a abordagem baseada em risco — na prática, o que isso significa?

R: É algo comum em AML e, cada vez mais, em fraude — mas é bem mais do que um buzzword. Significa conhecer profundamente o negócio, identificar os pontos de dor, traduzi-los em riscos, ranqueá-los e direcionar recursos para onde o risco residual é mais alto.

Fraude é algo dinâmico. Você não pode ignorar riscos considerados baixos — eles podem se reativar. É preciso monitorar todos, com intensidades diferentes.

No programa de diploma que eu co-dirijo com Mario Ader — o primeiro na América Latina focado em prevenção de fraude — resumimos o modelo em três pilares: entender, intervir, medir para melhorar. Essa deve ser a base de qualquer estratégia.

P: Que conselho você daria para alguém júnior que está começando em compliance ou prevenção de fraude?

R: Primeiro: tenha certeza de que você gosta dessa área. Não é um trabalho para qualquer pessoa. Você pode receber uma ligação às quatro da manhã por causa de um incidente de risco — e precisa estar pronto. É necessário propósito e paixão.

Segundo: estude todos os dias, pelo menos uma hora. Eu estudo mais hoje do que na época da faculdade.

Terceiro: faça networking. Seja ativo no LinkedIn, participe de webinars, leia, pergunte.

Quarto: colabore. Fraudadores colaboram entre si — as instituições financeiras, ainda não o suficiente. Precisamos ser mais unidos.

P: Existe colaboração real entre instituições financeiras ou é mais discurso que prática?

R: A colaboração real está crescendo, especialmente na América Latina. Há fóruns na Argentina, no Brasil, no Equador… O sistema, aos poucos, vai deixando de lado quem não participa. Ainda há muito trabalho pela frente, mas a tendência é positiva. E não é necessário compartilhar dados pessoais — apenas tipologias, padrões, vetores de ataque. Isso já ajuda bastante.

P: Olhando para cinco ou dez anos à frente, que mudança cultural você gostaria de ver no setor financeiro?

R: A grande mudança é entender a prevenção de fraude como parte da proposta de valor. Se isso for internalizado, o resto flui.

Em uma escala mais ampla, precisamos de mais diálogo entre setor público e privado. Às vezes, os reguladores exigem coisas pouco realistas — não por má intenção, mas por falta de entendimento. Eles precisam conhecer melhor como o sistema financeiro funciona e para onde está caminhando.

Também precisamos de uma legislação penal mais forte para crimes de fraude. Hoje, muitos criminosos sabem como entrar e sair do sistema. A Justiça está sobrecarregada com crimes considerados mais graves, e a fraude acaba recebendo pouca atenção. Isso precisa mudar.

Martín Perucca: “Prevenir a fraude fortalece a proposta de valor da organização”

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