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Alan Poyatos: «A regulação é um valor para o consumidor — quando é proporcional e exequível»
November 29, 2025

Alan Poyatos: «A regulação é um valor para o consumidor — quando é proporcional e exequível»

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Alan Poyatos é Chief Compliance Officer na BitBase e um dos perfis mais singulares do ecossistema cripto em Espanha: advogado de formação, detentor de Bitcoin desde 2012 e convicto de que uma boa regulação gera confiança e impulsiona o crescimento do negócio. Na BitBase lidera um modelo híbrido — lojas físicas e ATMs, mais o canal online — que leva cripto a pessoas que preferem apoio humano, com KYC automatizado e revisão manual de cada onboarding. «A regulação é um valor para o consumidor — quando é proporcional e aplicável», afirma, referindo-se a MiCA, à prova de reservas e a planos de resolução ordenada.

Com base na sua experiência de expansão na América Latina (Panamá, Paraguai, Argentina, Bolívia e Costa Rica), sublinha uma realidade: «Lá, cripto é uma necessidade; aqui, é um investimento.» Preocupam-no os deepfakes e a engenharia social e defende ferramentas que permitam o congelamento judicial de fundos roubados. Optimista assumido, não tem dúvidas sobre o destino: «Veremos adoção em massa; pagar o pão com cripto será normal.»

Q: O que o motivou a entrar no universo cripto e a assumir o cargo de compliance na BitBase?

A: Sou advogado e já fazia trading em ações quando descobri as criptomoedas. A sua natureza disruptiva face ao sistema financeiro tradicional cativou-me. Sempre defendi as liberdades civis e os direitos dos consumidores — litiguei contra instituições financeiras em casos de fraude bancária — e vi no Bitcoin e na blockchain uma alternativa que devolve às pessoas o controlo sobre o seu dinheiro, em contraste com um sistema que abandonou o padrão-ouro e permite aos Estados manipular taxas de câmbio e o valor da moeda. Comprei o meu primeiro bitcoin em 2012 e, desde então, sou um holder convicto. A tecnologia blockchain dá poder às pessoas, sobretudo em países com hiperinflação ou moedas manipuladas. É verdade que hoje os grandes detentores são instituições e que os investidores de retalho perderam parte dessa oportunidade histórica, mas a oportunidade existiu e ainda bem que apostei nela.

Q: Combinam físico e digital. Como gerem a conformidade num ambiente híbrido como esse?

A: O nosso negócio é cripto com uma camada muito tradicional. Atendemos pessoas que não querem comprar online: há uma lacuna tecnológica, desconfiança ou simplesmente preferem a interação humana. Por isso, as lojas físicas e os ATMs são fundamentais: oferecem apoio real e resolução rápida (incluindo apoio telefónico a partir dos ATMs). Do ponto de vista regulatório, o modelo híbrido é mais complexo porque trabalhamos com numerário. Cripto já implica risco devido à pseudo-anonimidade; se juntarmos dinheiro em espécie, o “cocktail” fica mais forte. Mitigamos com formação intensiva (fraude e AML/CFT), identificação automatizada e revisão manual de cada registo: olhos humanos verificam o vídeo, a prova de vida e a consistência dos dados. Incluímos sinais como a forma como a pessoa pronuncia os números durante o vídeo. Isso reduz significativamente a usurpação de identidade.

Q: Verificam os utilizadores nos ATMs? Como funciona na prática?

A: Sim. Se for um cliente novo, depois de introduzir o número de telemóvel recebe um link e conclui o onboarding no telemóvel com verificação por vídeo. Todos os clientes da BitBase são identificados.

Q: Uma das grandes questões do setor é equilibrar transparência, experiência de utilizador e acessibilidade. Como gerem essa tensão?

A: No início, muitos utilizadores procuravam privacidade extrema. A regulação, em nome da proteção do consumidor, reduziu esse anonimato. Alguns desses utilizadores migraram para ambientes mais opacos, enquanto outros perceberam que a identificação traz garantias. Com a Travel Rule, a verificação e a rastreabilidade, a fraude diminui: ninguém quer aplicar esquemas «em seu próprio nome».

Q: Quais são os principais pontos críticos de compliance para uma empresa híbrida como a vossa?

A:

  • Relação bancária: Abertura de contas continua a ser difícil. Mesmo com um programa de compliance robusto, a combinação cripto + numerário excede o apetite de risco de muitos bancos.
  • Literacia do utilizador e impostos: Explicar porque é necessária a identificação e como funciona a fiscalidade. Na época de declaração de IRS recebemos muitas questões — nem os utilizadores nem alguns contabilistas têm o quadro totalmente claro. Enviar resumos anuais simples, pensados para a Autoridade Tributária, ajuda; quando o cliente compreende a sua carga fiscal, a fricção diminui.
  • Reputação do setor: A narrativa «cripto = ilegal» causou danos. A tecnologia não é má; tudo depende do uso. As criptomoedas permitem transferências globais, custos mais baixos e pagamentos irrevogáveis (para o bem e para o mal), o que altera as regras do jogo. Por exemplo, já não se esperam 48 horas bancárias e o pagamento não pode ser revertido. Pode pagar-se a alguém no Japão quase de imediato numa “moeda” comum.

    À medida que a fiscalidade é melhor compreendida e o enquadramento regulatório amadurece, o setor evoluirá para novos produtos: mais staking, lending e tokenização de activos do mundo real.

Q: Com MiCA e mais regulação, os consumidores sentem-se mais seguros?

A: Ainda não estamos numa fase de adoção massiva. O público em geral provavelmente entrará através de produtos financeiros tradicionais, abdicando de parte do potencial de valorização. Mas a regulação cria estruturas de confiança: autorização MiCA, mecanismos de reclamação, apoio na língua local, prova de reservas e planos de resolução ordenada para evitar situações tipo FTX. Não se trata de “compliance de fachada”: são planos reais, com papéis definidos e firewalls, auditorias e verificação de que os criptoactivos em custódia existem de facto, incluindo planos de resposta a ciberataques (quem faz o quê, como se comunica e que barreiras operacionais são activadas).

Q: Há quem veja a regulação como travão à inovação. Para si, é valor acrescentado ou barreira?

A: É valor acrescentado e proteção do consumidor, se for implementada com critério, prazos razoáveis e ouvindo o setor. Mas hoje há uma barreira de entrada forte: embora o princípio da proporcionalidade exista, é muito difícil para um pequeno empreendedor lançar uma exchange devido aos custos fixos de compliance. Isso abranda a inovação, mas reduz “boiler rooms” e listagens irresponsáveis: acabou-se a era de «dois amigos na garagem com o ChatGPT a escrever um whitepaper». Antes de listar, é preciso escrutinar o projecto a sério.

É importante ter cuidado com a usurpação de identidade: existem canais e grupos falsos no Telegram que se fazem passar pela BitBase; recomendamos sempre verificar os canais oficiais.

Q: Têm planos de expansão?

A: Sim. Temos presença na América Latina — Panamá, Paraguai, Argentina, Bolívia e Costa Rica — e vamos continuar a crescer. Com a autorização MiCA abriremos novos mercados na Europa.

Q: Como vê as diferenças regulatórias e culturais entre a Europa e a América Latina?

A: Fiquei agradavelmente surpreendido: na América Latina há uma regulação AML/CFT extensa e regras específicas para cripto, com formação gratuita dos supervisores para responsáveis de compliance. Culturalmente, na Europa predomina a vertente de investimento; na América Latina, cripto é usado como meio de pagamento e reserva de valor. Muita gente poupa em stablecoins (USDT) ou bitcoin porque a moeda local é fraca e o acesso a dólares é limitado. Lá, cripto é uma necessidade, não uma opção.

Q: Olhando para o curto e médio prazo, que riscos emergentes mais o preocupam?

A: Dois grandes:

  • Usurpação de identidade com IA (voz, imagem, vídeo): a identificação por vídeo terá de endurecer para distinguir humanos de deepfakes.
  • Engenharia social cada vez mais sofisticada: os burlões conseguem levar pessoas de qualquer idade a «normalizar» pagamentos em cripto a fraudadores.

    Gostaria também de ver tecnologias capazes de congelar ou apreender fundos identificados como roubados — não apenas rotulá-los on-chain — e devolvê-los ao legítimo proprietário após decisão judicial definitiva.

Q: Que conselho daria a alguém que quer trabalhar em compliance cripto?

A: Avance. É entusiasmante combinar direito, compliance e cripto. Ninguém sabe tudo: aprendemos em tempo real. É preciso motivação, curiosidade e capacidade para aceitar que o enquadramento muda constantemente com novas orientações e interpretações.

Q: Como imagina o seu papel daqui a 10 anos, quando o cripto fizer parte do dia-a-dia?

A: Espero continuar a ser responsável (mais sénior) de compliance e ver a adoção em massa: comprar o pão com cripto como algo perfeitamente banal. Não tenho dúvidas de que isso vai acontecer.

Alan Poyatos: «A regulação é um valor para o consumidor — quando é proporcional e exequível»

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